Desde a atualização da NR-1, esses fatores devem obrigatoriamente ser identificados, avaliados, registrados e controlados dentro do GRO/PGR, com participação dos trabalhadores, integração com a NR-17 e acompanhamento contínuo, sob pena de autuações e aumento de passivos trabalhista. Veja aqui a Lista de verificação para auditoria de riscos psicossociais da NR-01
Sumário
1. Introdução: por que a saúde mental virou tema central na NR-1
Contexto normativo, aumento dos afastamentos por transtornos mentais e a mudança de paradigma na medicina do trabalho.
2. O que mudou na NR-1 sobre riscos psicossociais
2.1 Inclusão expressa dos riscos psicossociais no GRO/PGR
2.2 Integração obrigatória com a NR-17 (Ergonomia)
2.3 Conceito de probabilidade e avaliação do risco psicossocial
3. O que são fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho
Definição prática, exemplos cotidianos e distinção entre risco ocupacional e problema individual.
4. Como funciona a gestão dos riscos psicossociais (NR-1 + NR-17)
Etapas do gerenciamento: identificação, avaliação, controle, monitoramento e revisão.
5. Preparação para identificar riscos psicossociais
5.1 Levantamento prévio de informações
5.2 Envolvimento das partes interessadas (RH, lideranças, SESMT, CIPA)
5.3 Comunicação adequada com os trabalhadores
6. Ferramentas e métodos de identificação dos riscos psicossociais
Questionários, entrevistas, observação direta e escolha do método conforme o porte da empresa.
7. Implementação da identificação e avaliação dos riscos
Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP), Análise Ergonômica do Trabalho (AET) e foco no trabalho real.
8. Avaliação e classificação do risco psicossocial
Critérios qualitativos, severidade, probabilidade e diferenciação entre PGR e PCMSO.
9. Implementação das medidas de prevenção
9.1 Prioridade para mudanças na organização do trabalho
9.2 Exemplos práticos de medidas eficazes
9.3 Limitações de ações exclusivamente comportamentais
10. Documentação correta dos riscos psicossociais no PGR
Itens obrigatórios do inventário de riscos e do plano de ação.
11. Exemplo prático aplicado à realidade clínica ocupacional
Interpretação do guia do MTE com base em casos reais do dia a dia do médico do trabalho.
12. Perguntas frequentes sobre riscos psicossociais
Esclarecimento de dúvidas comuns de empresas, RH e trabalhadores.
13. Conclusão
Impactos legais, previdenciários e organizacionais da gestão adequada dos riscos psicossociais.
14. Orientação estratégica final
Importância da abordagem técnica, preventiva e integrada à NR-1 e ao PCMSO.
ntrodução: por que saúde mental virou tema central na NR-1
Na prática clínica diária como médico do trabalho, uma cena se repete com frequência crescente: trabalhadores que chegam ao exame periódico ou de retorno sem uma queixa física clara, mas relatando cansaço extremo, irritabilidade, dificuldade de concentração, insônia e perda de motivação. Muitos dizem:
“Doutor, eu não estou doente… só estou esgotado.”
Durante muitos anos, esse tipo de relato ficou em uma zona cinzenta: não era acidente, não era agente químico, não era ruído. O Guia do MTE de 2025 veio justamente para corrigir essa lacuna, deixando explícito que os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho fazem parte do gerenciamento de riscos ocupacionais Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Esse movimento não surgiu por acaso. Dados citados no próprio guia mostram que transtornos mentais relacionados ao trabalho já figuram entre as principais causas de adoecimento ocupacional no Brasil, com impacto direto em afastamentos, produtividade e custos previdenciários Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
1. O que mudou na NR-1 sobre riscos psicossociais
Inclusão expressa dos riscos psicossociais
Antes da atualização, a NR-1 já falava em “todos os riscos ocupacionais”. O problema era a interpretação. Muitas empresas entendiam que risco psicossocial era “assunto do médico” ou “questão pessoal do trabalhador”.
Com a Portaria MTE nº 1.419/2024, isso acabou. A norma passou a citar explicitamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho dentro do GRO, ao lado de riscos físicos, químicos, biológicos, acidentes e ergonômicos Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Na prática do consultório, isso muda tudo. Hoje, quando avalio um trabalhador com ansiedade relacionada a metas abusivas, não se trata apenas de um problema clínico: trata-se de um risco ocupacional que deveria estar no PGR da empresa.
Integração direta com a NR-17 (Ergonomia)
Outro ponto fundamental é a integração formal entre NR-1 e NR-17. A NR-17 define que ergonomia não é apenas postura ou mobiliário, mas também organização do trabalho — e é exatamente aí que os riscos psicossociais se concentram Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
No dia a dia, vejo empresas que ajustam cadeira, monitor e mesa, mas mantêm:
- Metas inalcançáveis
- Jornadas extensas
- Falta de clareza de função
- Lideranças despreparadas
Do ponto de vista da norma, isso é ergonomia mal feita.
Probabilidade e avaliação do risco psicossocial
O guia deixa claro um ponto que gera muita confusão: não se avaliam sintomas individuais, e sim condições de trabalho.
Não é medir ansiedade do trabalhador. É identificar quais fatores do trabalho são estressores crônicos Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Esse esclarecimento é essencial para evitar erros graves, como tentar “diagnosticar” funcionários dentro do PGR.
2. O que são fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho
De forma simples, são perigos que surgem quando o trabalho é mal concebido, mal organizado ou mal gerenciado, gerando efeitos negativos na saúde psicológica, física e social do trabalhador Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Na prática médica, os mais comuns são:
- Sobrecarga constante
- Assédio moral explícito ou velado
- Falta de autonomia
- Comunicação confusa
- Reconhecimento inexistente
- Trabalho remoto isolado
- Metas incompatíveis com o tempo disponível
Esses fatores não aparecem em exames laboratoriais, mas aparecem claramente no histórico clínico ocupacional.
3. Como fazer a gestão dos riscos psicossociais (NR-1 + NR-17)
A gestão segue a mesma lógica dos demais riscos:
- Identificar perigos
- Avaliar riscos
- Implementar medidas de prevenção
- Acompanhar e revisar
O diferencial é o método, que passa obrigatoriamente pela Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) e, quando necessário, pela Análise Ergonômica do Trabalho (AET) Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Como médico do trabalho, costumo explicar assim para gestores:
“Se você não olha para a forma como o trabalho acontece de verdade, você nunca vai entender por que as pessoas adoecem.”
4. Preparação para identificar riscos psicossociais
Levantamento de informações
Antes de aplicar qualquer questionário, é essencial levantar:
- Como é o processo produtivo
- Como funcionam as equipes
- Onde há maior absenteísmo
- Onde há mais afastamentos por CID F
No consultório, muitas vezes identifico setores problemáticos antes mesmo de ver o PGR, apenas analisando histórico de afastamentos e rotatividade.
Envolvimento das partes interessadas
O guia é claro: ninguém faz isso sozinho. Devem participar:
- RH
- Lideranças
- SESMT (se houver)
- Trabalhadores
- CIPA
Quando isso não ocorre, o processo vira “papel para fiscalização”, sem efeito real Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Comunicação clara com os trabalhadores
Um erro comum que vejo: aplicar questionário psicossocial sem explicar o objetivo. Resultado? Desconfiança, respostas defensivas e dados inúteis.
Sempre reforço:
“Não estamos avaliando você. Estamos avaliando o trabalho.”
5. Ferramentas e métodos de identificação
O MTE não obriga nenhuma ferramenta específica, mas exige que o método seja:
- Adequado ao risco
- Adequado ao porte da empresa
- Cientificamente fundamentado
- Aplicado por pessoas capacitadas Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Exemplos práticos
- Empresa grande → questionários anônimos
- Empresa pequena → oficinas, entrevistas, observação direta
- Setores críticos → combinação de métodos
No meu dia a dia, já vi empresas pequenas resolverem grandes problemas apenas sentando para ouvir os trabalhadores, algo que nenhum software substitui.
6. Implementação da identificação e avaliação de riscos
Na AEP, o foco é o trabalho real, não o que está no procedimento escrito.
Exemplo clássico do consultório:
A tarefa diz “atendimento ao cliente”.
A atividade real envolve:
- Atender telefone
- Responder e-mail
- Resolver problema urgente
- Sofrer cobrança simultânea
- Pular almoço
É aí que o risco psicossocial aparece.
7. Avaliação e classificação do risco
A avaliação pode ser qualitativa, baseada no conhecimento técnico do profissional de SST, considerando:
- Severidade do dano possível
- Probabilidade de ocorrência
- Efetividade das medidas existentes Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Importante: não confundir com exame médico de aptidão. O PGR não substitui o PCMSO, e vice-versa.
8. Implementação das medidas de prevenção
Aqui ocorre o maior erro que observo como médico: focar no indivíduo e não na organização.
O guia é explícito:
Deve-se priorizar intervenções que modifiquem a organização do trabalho, e não apenas intervenções comportamentais Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Exemplos eficazes
- Redefinição de metas
- Redistribuição de tarefas
- Aumento de autonomia
- Pausas reais e respeitadas
- Capacitação de lideranças
Medidas como “palestra motivacional” não resolvem sobrecarga crônica.
9. Documentação correta no PGR
O inventário de riscos deve conter, no mínimo:
- Descrição do processo
- Atividades
- Perigos psicossociais
- Possíveis danos
- Trabalhadores expostos
- Medidas de prevenção
- Avaliação do risco
- Plano de ação Guia-Fatores-de-Riscos-Psicosso….
Na prática, isso é o que protege a empresa em uma fiscalização.
10. Exemplo prático (interpretação clínica)
O exemplo do guia descreve um escritório com sobrecarga de trabalho.
Como médico do trabalho, já vi esse cenário dezenas de vezes:
Funcionários com:
- Horas extras constantes
- Intervalos ignorados
- Múltiplas funções
- Queixas de insônia e ansiedade
Quando a empresa atua apenas com remédios ou afastamentos, o problema se repete.
Quando atua na organização do trabalho, o adoecimento cai drasticamente.
11. Perguntas frequentes que escuto no consultório
“Todo trabalho tem risco psicossocial?”
Não necessariamente. Só é possível saber após a avaliação.
“Isso avalia a saúde mental do funcionário?”
Não. Avalia o trabalho, não a pessoa.
“Quem é o responsável?”
A responsabilidade é da organização.
Conclusão
A inclusão expressa dos fatores de riscos psicossociais na NR-1 não é modismo, é resposta a uma realidade que já chegou ao consultório médico, ao INSS e à Justiça do Trabalho. Empresas que tratam o tema com seriedade não apenas cumprem a lei, mas reduzem afastamentos, conflitos e custos invisíveis.
Como médico do trabalho, afirmo com convicção:
O adoecimento mental raramente é surpresa. Ele é o resultado previsível de um trabalho mal organizado.
Se sua empresa, RH ou contabilidade precisa implementar corretamente a gestão dos riscos psicossociais conforme a NR-1, com método, documentação e integração com o PCMSO, a condução técnica adequada é decisiva para evitar erros, autuações e passivos futuros.
👉 Gestão de riscos psicossociais baseada em norma, prática médica e segurança jurídica.

