Início Okup Diferença entre estresse comum e doença psicossocial ocupacional.

    Diferença entre estresse comum e doença psicossocial ocupacional.

    O estresse comum é uma resposta adaptativa e transitória do organismo às demandas do trabalho, enquanto a doença psicossocial ocupacional ocorre quando há estresse crônico, persistente e associado à organização do trabalho, gerando prejuízo funcional, adoecimento mental e, muitas vezes, afastamentos previdenciários. A diferenciação correta é essencial para evitar banalização do sofrimento psíquico e garantir condutas adequadas no PGR e no PCMSO.


    O que é estresse segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)?

    De acordo com a OMS, o estresse é uma resposta fisiológica e psicológica normal diante de situações desafiadoras. Em níveis moderados e temporários, ele não é uma doença, podendo inclusive melhorar o desempenho e a capacidade de adaptação.

    O problema surge quando o estresse:

    • É crônico
    • Está ligado à organização do trabalho
    • Não encontra períodos adequados de recuperação
    • Passa a comprometer o funcionamento emocional, cognitivo e social

    Nesse ponto, deixa de ser apenas estresse e passa a se relacionar com adoecimento psicossocial.


    Quando o estresse deixa de ser comum e se torna ocupacional?

    O estresse se torna ocupacional quando existe nexo causal ou concausal com o trabalho, ou seja, quando fatores como:

    • Pressão excessiva por metas
    • Jornadas prolongadas
    • Falta de autonomia
    • Assédio moral
    • Comunicação organizacional inadequada

    passam a atuar de forma contínua, levando a sintomas persistentes e prejuízo funcional. É nesse cenário que surgem quadros como Burnout, transtornos de ansiedade e depressão relacionados ao trabalho, reconhecidos pela medicina e pela previdência social.


    Burn On: um novo nome para problemas antigos?

    O termo Burn On passou a circular nos últimos anos como uma suposta “prima do Burnout”. Definido em 2021 pelos alemães Timo Schiele (psiquiatra) e Bert te Wildt (psicoterapeuta), o Burn On foi descrito como uma espécie de “depressão mascarada”, em que o indivíduo permanece funcional, produtivo e sorridente, mesmo estando à beira da exaustão.

    Segundo essa definição, o Burn On seria um estado em que as pessoas trabalham constantemente no limite, adiando o colapso que caracterizaria o Burnout clássico.


    Burn On é uma doença reconhecida?

    Não.
    De forma clara e objetiva: Burn On não é reconhecido como doença, transtorno ou síndrome.

    Conforme destaca Marcos Mendanha, médico e autor do livro O que ninguém te contou sobre o burnout, o termo:

    • Não consta na CID-10
    • Não consta na CID-11
    • Não consta no DSM-5-TR
    • Não é reconhecido pela OMS ou pela Associação Americana de Psiquiatria (APA)

    Até maio de 2024, não havia sequer publicações científicas relevantes sobre Burn On em bases como o PubMed. Do ponto de vista da medicina baseada em evidências, trata-se de um termo sem validação científica.


    O problema clínico do conceito de Burn On

    Mendanha aponta um problema central: o Burn On mistura conceitos clínicos distintos, criando confusão diagnóstica. O termo tenta abarcar:

    • Sintomas depressivos
    • Transtornos de ansiedade
    • Workaholismo
    • Traços de personalidade como perfeccionismo não adaptativo
    • Até sinais sugestivos de mania ou hipomania

    Em determinados momentos, o Burn On é descrito como “depressão mascarada”; em outros, como um estado de “super excitação” e entusiasmo excessivo pelo trabalho. Essa inconsistência conceitual fragiliza seu valor clínico.

    “Quando algo quer ser tudo, acaba não sendo nada”, resume Mendanha.


    Sintomas atribuídos ao Burn On: o que eles realmente indicam?

    Os criadores do termo listam sintomas como:

    • Pressão arterial elevada
    • Dores no pescoço, costas e cabeça
    • Bruxismo
    • Perda de esperança
    • Ansiedade, depressão e vícios

    O problema é que esses sintomas são genéricos e inespecíficos, comuns a diversos transtornos já bem definidos pela medicina. Para o cuidado do paciente, confundir ou camuflar diagnósticos reconhecidos com novos rótulos pode atrasar tratamento adequado e prolongar o sofrimento.


    Burnout, estresse crônico e doenças psicossociais: onde o Burn On se encaixa?

    À luz da CID-11 da OMS, o Burnout é classificado como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho, caracterizado por:

    • Exaustão emocional
    • Distanciamento mental do trabalho
    • Redução da eficácia profissional

    O Burn On, se considerado de forma teórica, poderia ser entendido apenas como uma fase intermediária do estresse crônico, anterior ao Burnout e aos transtornos mentais. Ainda assim, Mendanha alerta que transformar isso em diagnóstico formal é mais prejudicial do que útil.


    Diferença prática entre estresse comum e doença psicossocial ocupacional

    Estresse comumDoença psicossocial ocupacional
    TransitórioPersistente
    Reversível com descansoNão melhora com repouso simples
    Não gera prejuízo funcionalGera prejuízo laboral e social
    Não exige afastamentoPode exigir afastamento previdenciário
    Não tem nexo ocupacionalPossui nexo com o trabalho

    Essa diferenciação é fundamental para decisões no PGR, PCMSO, ASO e eSocial.


    Implicações para empresas e gestão de riscos

    Romantizar termos como Burn On pode levar empresas a:

    • Subestimar quadros clínicos reais
    • Postergar intervenções necessárias
    • Fragilizar a gestão dos riscos psicossociais
    • Aumentar passivos trabalhistas e previdenciários

    A abordagem correta é técnica, baseada em normas e evidências, não em modismos conceituais.


    Conclusão

    O estresse faz parte da vida e do trabalho. Já as doenças psicossociais ocupacionais são consequência de estresse crônico mal gerenciado, vinculado à organização do trabalho. Termos como Burn On, embora populares, não substituem diagnósticos reconhecidos, não constam nas classificações oficiais e podem mais confundir do que ajudar. Para proteger trabalhadores e empresas, o caminho é identificar riscos psicossociais no PGR, monitorar a saúde pelo PCMSO e atuar de forma preventiva, técnica e responsável.


    Se sua empresa, RH ou contabilidade precisa diferenciar estresse comum de adoecimento psicossocial ocupacional, com respaldo técnico, normativo e foco preventivo, a análise correta é essencial para evitar erros de conduta e passivos legais.

    👉 Gestão de riscos psicossociais com base científica, normativa e segurança jurídica.

    Sair da versão mobile