Na NR-01, o psicólogo e o médico do trabalho exercem papéis complementares e distintos na gestão dos riscos psicossociais. O psicólogo atua principalmente na análise dos fatores psicossociais, do comportamento organizacional e das intervenções coletivas, enquanto o médico do trabalho é o responsável técnico pela avaliação da aptidão, monitoramento da saúde, integração com o PCMSO e tomada de decisão ocupacional. Confundir esses papéis é um erro técnico frequente e gera falhas no PGR.
Por que a NR-01 exige uma abordagem multiprofissional?
A NR-01 não criou novas profissões nem transferiu responsabilidades. Ela deixou explícito que os riscos psicossociais fazem parte do gerenciamento de riscos ocupacionais, assim como ruído, agentes químicos ou riscos de acidentes.
Na prática do consultório, isso ficou muito claro nos últimos anos. Passei a receber trabalhadores encaminhados pelo RH com frases como:
“O psicólogo disse que ele não pode trabalhar mais aqui.”
Ou, no extremo oposto:
“Isso é psicológico, o médico não precisa avaliar.”
Ambas as situações estão tecnicamente erradas.
Os riscos psicossociais exigem uma abordagem multiprofissional, mas com limites claros de atuação, definidos pela legislação trabalhista, normas regulamentadoras e pelo Código de Ética de cada profissão.
O que a NR-01 realmente diz sobre responsabilidades?
A NR-01 não atribui a gestão dos riscos psicossociais exclusivamente ao psicólogo nem ao médico. Ela determina que:
- A empresa deve identificar, avaliar e controlar os riscos
- O processo deve envolver pessoas capacitadas
- As decisões devem estar documentadas no PGR
- A saúde do trabalhador deve ser monitorada pelo PCMSO
Ou seja:
- O risco é organizacional
- A gestão é da empresa
- Os profissionais são apoio técnico especializado
Esse ponto é essencial para evitar judicialização indevida e conflitos entre áreas.
Papel do psicólogo na NR-01 e nos riscos psicossociais
O psicólogo atua principalmente na compreensão do ambiente psicossocial de trabalho. Seu foco não é emitir ASO nem definir aptidão laboral, mas analisar fatores organizacionais e comportamentais que impactam a saúde mental coletiva.
Principais atribuições do psicólogo
Na prática, o psicólogo contribui com:
- Identificação de fatores psicossociais (assédio, sobrecarga, conflitos)
- Aplicação e interpretação de questionários psicossociais
- Análise de clima organizacional
- Apoio em avaliações ergonômicas (AEP / AET)
- Proposição de intervenções organizacionais
- Treinamento de lideranças
- Orientação coletiva sobre saúde mental no trabalho
No meu dia a dia como médico do trabalho, o psicólogo é fundamental para traduzir o que o trabalhador sente em padrões organizacionais.
O que o psicólogo não faz na NR-01
Aqui surgem os erros mais comuns:
- ❌ Não emite ASO
- ❌ Não define aptidão ou inaptidão
- ❌ Não afasta trabalhador
- ❌ Não estabelece nexo previdenciário
- ❌ Não substitui o médico do trabalho
Quando isso ocorre, a empresa fica sem respaldo legal, mesmo acreditando estar “bem assessorada”.
Papel do médico do trabalho na NR-01
O médico do trabalho é o responsável técnico pela saúde ocupacional, com atribuições definidas pela NR-07, CLT e legislação previdenciária. Na NR-01, seu papel é integrar o risco psicossocial à avaliação médica ocupacional.
Principais atribuições do médico do trabalho
Na prática clínica, o médico do trabalho:
- Avalia a repercussão dos riscos psicossociais na saúde
- Realiza exames ocupacionais (admissional, periódico, retorno, demissional)
- Emite ASO
- Analisa aptidão ou inaptidão
- Avalia necessidade de restrições
- Define condutas ocupacionais
- Integra PGR e PCMSO
- Dialoga com INSS, quando necessário
É comum o trabalhador chegar ao exame dizendo:
“O problema não é comigo, é o trabalho.”
Cabe ao médico diferenciar:
- Sofrimento transitório
- Estresse comum
- Adoecimento mental relacionado ao trabalho
Essa diferenciação tem impacto jurídico e previdenciário direto.
Onde psicólogo e médico do trabalho se complementam?
A gestão eficaz dos riscos psicossociais ocorre quando há fluxo claro entre as áreas.
Exemplo prático do dia a dia
- Psicólogo identifica alto nível de sobrecarga em determinado setor
- Informação entra no PGR como risco psicossocial
- Médico do trabalho observa aumento de queixas no periódico
- PCMSO ajusta monitoramento
- Empresa atua na organização do trabalho
Sem esse fluxo, o processo quebra.
Erros comuns na divisão de papéis
Na prática, vejo alguns erros se repetirem:
Erro 1 – Psicólogo como “decisor final”
O psicólogo aponta sofrimento → empresa afasta funcionário sem avaliação médica → problema jurídico.
Erro 2 – Médico ignorando análise psicossocial
O médico avalia apenas clinicamente → não entende o contexto → conduta isolada e ineficaz.
Erro 3 – RH usando psicologia como “filtro”
Encaminha trabalhadores “difíceis” ao psicólogo como solução organizacional.
A NR-01 veio justamente para corrigir esse tipo de distorção.
Quem responde perante a fiscalização?
Outro ponto crítico: a fiscalização não cobra o psicólogo ou o médico, ela cobra a empresa.
O auditor avalia:
- Se o risco psicossocial está identificado no PGR
- Se há medidas de controle
- Se há monitoramento de saúde
- Se há coerência entre risco, ação e documento
O profissional responde tecnicamente, mas a responsabilidade legal é da organização.
Psicólogo substitui médico do trabalho no risco psicossocial?
Não.
E médico do trabalho substitui psicólogo? Também não.
São funções diferentes, com formações, responsabilidades e limites éticos distintos.
No meu dia a dia, costumo resumir para gestores assim:
“O psicólogo entende o ambiente.
O médico responde pela saúde.
A empresa responde pela gestão.”
Impactos dessa divisão correta de papéis
Quando a empresa entende essa separação:
- O PGR fica tecnicamente robusto
- O PCMSO deixa de ser reativo
- Reduz afastamentos prolongados
- Diminui judicialização
- A fiscalização encontra coerência documental
Quando não entende:
- Surgem laudos contraditórios
- ASOs frágeis
- Condutas questionáveis
- Passivos trabalhistas desnecessários
Conclusão
A NR-01 não criou uma disputa entre psicólogo e médico do trabalho. Ela reforçou a necessidade de atuarem juntos, mas cada um dentro de sua competência legal e técnica. A gestão dos riscos psicossociais exige análise organizacional, cuidado com a saúde e decisões ocupacionais responsáveis. Confundir papéis não protege o trabalhador nem a empresa — ao contrário, aumenta riscos.
Se sua empresa, RH ou contabilidade precisa estruturar corretamente o papel do psicólogo e do médico do trabalho na NR-01, com segurança jurídica, integração entre PGR e PCMSO e alinhamento com a fiscalização, a orientação técnica adequada é decisiva.
👉 Gestão de riscos psicossociais com papéis bem definidos, base normativa e prática médica.


